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A comida como símbolo de poder

Muito já se falou da comida como status e prova de riqueza. A seleção social de quem sabe usar diversos talheres e de quem nunca viu um garfo de peixe; o luxo de quem janta toda semana em restaurante caro e posta no instagram; a bebida que pisxca na balada. São muitos os modos de ostentar através do que comemos. 

Recentemente entrei em contato com algo óbvio, porém velado: a comida como símbolo e moeda de poder. Foram dois episódios em que pude observar isso com muita clareza. 

O primeiro, no genial podcast “A mulher da casa abandonada” de Chico Felitti, que discute o racismo e a escravidão contemporânea. No episódio 5, de título “Outras Tantas Mulheres” o jornalista fala sobre a relação de poder e comida e entrevista a Madalena Gordiano, que por muitos anos viveu em condições análogas à escravidão. Transcrevo aqui o trecho do podcast, retirado do site da Folha

“Nos episódios anteriores, a gente viu que Margarida Bonetti, a mulher da casa abandonada, chegou a jogar sopa quente no rosto da empregada que não pagava e que, quando ela e o então marido viajavam, trancava a geladeira da casa com cadeados. Com Madalena, as cenas são semelhantes. 

Os patrões criaram um ambiente de abandono, crueldade e áreas proibidas. Madalena bateu na porta da família em busca de comida, mas continuou passando fome sob o teto da família Milagres Rigueira. 

[Madalena] Passava fome. Eu era magrinha. 

Se a vissem pegando qualquer alimento, se irritavam e diziam que ela estava acabando com tudo. 

[Madalena] Ahhh eu mexia, eles falavam que eu comia tudo, sentia falta. Não podia não. 

A reação hostil dos empregadores era tão constante que Madalena parou de se arriscar. Passar fome se tornou o cotidiano dela. 

Madalena nunca comeu na mesa dos patrões. O quarto dela também era sala de jantar. Durante as refeições, eles esvaziavam as panelas. Só para mostrar que a comida da empregada não deveria ser a mesma que a deles. 

[Madalena] De manhã, de tarde, comia tudo. Pra não deixar nada pra mim. Comida é comida requentada. 

Se deixassem algo para ela, eram sobras requentadas. A casa era repleta de cadeados e fronteiras invisíveis que Madalena enxergava com clareza. Também havia dentro da casa um teatro de demonstração de poder. Por exemplo: se faziam uma porção de pão de queijo para o café da tarde, davam para Madalena apenas um. E não era por falta de comida. 

[Madalena] Agora as coisas também pra comer. Era assimUM pão de queijo. Ela fazia um, deixava na banqueta lá e por aí ficava. 

Os pães de queijo poderiam ficar na bancada da cozinha até murchar, Madalena não podia pegá-los. E sofria calada.”

Triste, evidente e velado. Um exemplo da comida como símbolo de poder.

O segundo ponto que me levou a pensar a comida e o poder foi este post da pesquisadora Valeska Zanello, que estuda gênero e saúde mental:

 

Esse post deu início a uma série de stories (estão em destaque como Fome e Gênero no perfil @zanellovaleska) em que mulheres relatam violências domésticas na alimentação. Temos lá relatos como: 

“(…) minha mãe muitas vezes deixou de comer e se alimentar para sobrar para nós, seus filhos (…) meu pai sempre ataca a panela e enche seu prato o máximo que pode, repete e nem se importa se tem mais gente para comer ou não.”

“(…) nós sustentamos os homens com nosso dinheiro e esforços (meninas levam comida, meninos refrigerante), mas não comemos da nossa própria comida, vez que quando não são os homens nos deixando à mingua, como nos tristes relatos que compartilhou, é a sociedade que diz que é feio mulher comer ‘muito’, repetir prato, etc. Produzimos e levamos a comida, mas quem come são os homens.”

“(…) quando eu dormia na casa dele, antes de eu acordar, ele passava o café gourmet só para ele e quando eu levantava fazia o café comum para mim.”

“(…) minha filha tem 3 anos, mas quando chega a pizza ela fica desesperada pra comer logo e colocar no prato dela. Percebi que era pq o pai dela comia tudo se deixasse.”

“(…) algum tempo depois perdi o bebê, em casa. Cansada, perdi mto sangue e passando mal, não consegui fazer comida. Pedi canja pelo iFood. Ele veio em casa na hora que o entregador chegou, comeu, brigou e foi embora.”

“Lendo tudo isso percebi que passei por algo parecido. Engordei 20 quilos durante um casamento de 8 anos. Eu sempre comia rápido para conseguir comer os pedaços que eu queria. Eu não gosto de frango e ele só comprava frango, mas quando eu comprava carne ele era o primeiro a comer.”

(…) lembrei que meu namorado sempre terminava o sorvete dele antes de mim e ficava pegando do meu.. eu odiava isso. Tudo que era lanche ele tinha que comer mais que eu, e se eu quisesse comer ‘muito’ também, era criticada por ele. Como se fosse algo muito feio mulher comer muito.”

“(…) lembro várias vezes meu pai ameaçando que ‘tinha que deixar vocês passando fome’ ao receber qualquer contrariedade.”

Transcrevi aqui só alguns dos relatos, nos destaques de Valeska tem muitos outros que vale serem lidos, para que homens e mulheres criem consciência das micro-violências que o machismo, a misoginia e o patriarcado oferecem no dia a dia. E como agir para não perpetuar. 

Lendo tudo isso, podemos ver que tanto nos casos de escravidão moderna, quanto nos casos de machismo, a comida é usada como instrumento de poder. A privação, a distinção de o que é meu e o que é seu (a melhor comida para quem tem mais poder), a determinação de quanto o outro pode ou não comer. São pequenos mas fortes gestos de poder e violência, usados para acuar as pessoas oprimidas e demonstrar o poder do mais forte nas relações: eu controlo o que você come. 

Convido você, que me lê, a refletir sobre isso. E me contar se perceber violências e jogo de poder alimentar na sua rotina. 

Lembrando que: o governo atual tem sequestrando nosso poder de compra. Mais uma violência alimentar, atacando a cesta básica dos brasileiros. 

© Mixirica. Tudo nosso.

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