Fluxos de consciência

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The four hundred

Já faz um tempo que escrever tem sido difícil para mim. A sobrecarga de tarefas da rotina, a ausência de governo e economia no país, a tristeza dos arredores cada vez que eu saio na rua e vejo mais gente sem ter o que comer e onde morar. Isso tudo e mais problemas tem acabado com minha vontade de escrever. E até de pensar, ás vezes. 

Mas mesmo não escrevendo muito ultimamente, recebi de amigas vários convites para um evento de escritoras. No começo hesitei, não tenho me sentido escritora, mas elas me lembraram do tanto que já escrevi antes. Me lembraram que isso ainda está em mim e que eu pertencia sim, ao grupo. E olha, que grupo. 

Reunidas num domingo de manhã na Praça Charles Muller, que já foi cenário de muita cena de terror, cerca de 400 mulheres escritoras estiveram juntas para dizer: Viva a escrita feminina. Por muito tempo as vozes femininas não foram ouvidas e estivemos lá em peso para mudar essa situação. Enchemos a Praça de força, poder, energia, protesto, crianças, cachorros e emoção de arrancar suspiros e lágrimas e arrepios. 

E ali, sentada na arquibancada do Estádio do Pacaembu e rodeada de mulheres que não se calam, eu percebi que é nas piores situações que falar (e escrever) é mais importante. É preciso voltar, e fazer desse um exercício frequente, para que se torne uma ferramenta de conforto em meio ao caos. Assim como cozinhar. 

foto de Mariana Vieira, na FSP

Escrever é Slow Cooking

Escrever é cozinhar demorado. Uma peça grande de carne no forno, a lasanha de mil camadas e dois molhos diferentes e um monte de queijo. A cada parágrafo, uma revisão, mais uma adição. Aquele tempero que falta quando você prova ou lê de novo. 

As mídias sociais são fast food e chegam por delivery. Você escolhe o que quer, segue a trend, clica um botão e o conteúdo já está ali meio pronto. O máximo que você tem que fazer é receber e colocar no seu prato, adaptar a trend à sua cara. Desenrola, bate, joga no pratinho.

Os dois tem suas vantagens. Mas eu preciso cozinhar mais. 

umas 4 horas de forno baixo

Resolução Vinte.Vinte

Neste último dia de um ano em que caí na ladeira (literalmente, com direito a nove pinos; e figurativamente, 2019 foi tiro porrada e bomba senhores), resolvi aderir ao minimalismo e tenho só uma resolução de ano novo: VOU COZINHAR MAIS.

Ok, parece simples, mas vamos destrinchar essa resolução em suas implicações implícitas e vocês verão que ela esconde muitas outras vantagens e sub-resoluções bastante populares.

A mais popular de todas sendo: esse ano eu vou emagrecer.

Você fazer sua própria comida ajuda a emagrecer. Você escolhe o que vai colocar na comida, se livra de produtos industrializados (que mesmo bons restaurantes muitas vezes usam nos seus pratos), faz melhores escolhas de acordo com o que precisa nutricionalmente, palativamente e emocionalmente. Nutrição completa, à sua escolha. Isso e a sensação de ter feito algo delicioso com suas próprias mãos e habilidades.

Outra resolução popular é: vou juntar dinheiro.

Mais uma vantagem secreta de cozinhar sua própria comida. Você ganha controle sobre seu orçamento, se livra de custos extras (taxas de entregas, gorjetas, custos de rolhas) e tentações (a sobremesa que acaba de passar na mesa do lado) e sabe exatamente quanto vai gastar. Dez entre dez economistas concordam que comer em casa é mais econômico.

Uma resolução atual e muito importante: vou fazer minha parte em preservar a natureza.

Evitando idas a restaurantes (uber, gasolina, ônibus, poluição, trânsito) ou resistindo à tentação de pedir comida em casa (moto, gasolina, poluição física e sonora, mil embalagens descartáveis inúteis) você já estará contribuindo com a sustentabilidade e com a preservação da nossa única casa – a terra, essa redondeza linda e única. E pode também escolher de quem você irá comprar seus ingredientes. Eu indico comprar de produtores, orgânicos, preocupados com o bem-estar animal, agricultores familiares, cooperativas locais. O consumo ético é a política do futuro.

A resolução familiar preferida é: vou passar mais tempo com meus pais e/ou filhos.

Cozinhem juntos. Ensine através do exemplo. Mostre para seus filhos como se faz, aprenda com seus pais, tenham aulas juntos se for preciso. Cozinhar pode ser até mais divertido do que comer juntos. A nutrição chega até nos laços familiares e sociais.

Por isso minha resolução para Vinte.Vinte é uma só: cozinhar.

Feliz nova década para todos.

Minha pia, minha vida

O tipo de sujeira da minha pia me traz (ou não) bem-estar. Doidera? Sim. Mas acompanha aqui meu raciocínio.

Estou de dieta. Nada muito radical, apenas algumas restrições de alimentos inflamatórios para tentar controlar melhor a rosácea que me afeta e tem estado ruim nos últimos meses. Mas alguns dos cortes foram alimentos animais gordos. Estou comendo apenas peixes e frutos do mar.

Além da melhora da pele (ufa) e de eu ter desinchado um pouco (consequências da alimentação) a principal diferença que notei na dieta foi minha pia. Muito mais agradável de limpar, tem dias em que só ligo a água quente e nem uso sabão.

A sujeira sai fácil, não gruda, posso deixar esperando algumas horas que o máximo de gordura endurecida que vai ter vai ser de um azeite aqui ou resto de salmão ali. E sabe o que eu penso: minhas veias e organismo devem estar mais limpos também.

Já cozinhou costela de boi? E deixou para lavar a louça depois e a gordura endureceu e virou uma crosta branca grossa e nojenta que você teve que derreter com água fervente ou não ia embora?

Agora imagina isso dentro de você, nas suas veias. Seu corpo não chega a cem graus para derreter aquela gordura toda.

E refrigenrante? Já viu aqueles videos de refrigerante desentupindo privada? Amolecendo ossos? Imaginou isso nas suas frágeis entranhas?

A próxima vez que for lavar a louça pense nisso. Imagina que o que sobrou ali na pia é o que vai estar dentro de você. Talvez ajude a se alimentar melhor. Sei que tem me ajudado muito.

Ouvi na feira

Escolhendo brócolis (estão caríssimos) na feira, ouvi o vendedor da banca conversando com o colega. Entre as salsinhas e as cebolinhas e as berinjelas fatiadas, ele dizia:

“- Aí ela me disse, é mano, mas cê não tem tempo de namorar. Fica aí cheio de coisa e não tem tempo pra namorar, como é que a gente vai fazer? Não rola.”

Eu te entendo amigo. Same here.

© Mixirica. Tudo nosso.

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