Na Trend

Uma nova onda que surgiu agora nas redes sociais é juntar os amigos em casa e cada um levar comidas e bebidas por cores. Uma pessoa leva tudo vermelho, outra tudo verde, mais uma com os amarelos e assim vai. 

O que percebi nos videos da “trend” é que só tem comida de saquinho. Tudo totalmente industrializado. Então resgatei aqui umas receitas que fiz em 2013 para a finada Revista Mais, do PDA. Foi uma matéria lindíssima só de saladas de uma cor só. Quem fotografou foi o Bruno Geraldi. 

Aqui vão as fotos (amo até hoje) e as receitas (a branca é minha preferida). Boa festa colorida : ) 

SALADAS COLOR BLOCK

. Salada laranja com salmão defumado e calda de kinkan

2 laranjas

2 pomelos rosas (grapefruit)

1 pimentão amarelo grande (ou 4 mini pimentões)

400g de salmão defumado

200g de queijo gruyére ralado

azeite e flor de sal a gosto

Para a calda de kinkan:

1 xícara de laranjas tipo kinkan

1 xícara de açúcar

½ xícara de água

7 cravos da índia e 1 canela em pau

Prepare a calda levando ao fogo o açúcar misturado à água. Junte as kinkans e os temperos e deixe ferver até obter uma calda. Reserve.

Em uma assadeira, espalhe o queijo ralado sobre uma folha de papel manteiga. Leve ao forno em temperatura baixa para derreter e tostar. Deixe esfriar e quebre em lascas. Queime o pimentão na chama do fogão e corte em pedaços.

Em um prato, intercale os gomos de laranja e pomelo com os pedaços de pimentão e as lascas de queijo tostado. Disponha as fatias de salmão e tempere com a calda de kinkan, um fio de azeite e flor de sal a gosto. Decore com uma kinkan e sirva.

Rende 4 porções.

. Salada roxa com tagliata e vinagrete de frutas vermelhas

500g de filet mingnon em uma peça

2 xícaras de repolho roxo em conserva

folhas de radichio

1 xícara de blueberries

4 mini beterrabas

8 azeitonas pretas

sal e pimenta do reino a gosto

para o vinagrete:

1/3 de xícara de vinagre de framboesa

¾ de xícara de azeite extra virgem

½ xícara de blueberries

sal a gosto

Prepare o vinagrete picando as bluberries e misturando-as ao vinagre e o azeite. Tempere com sal e reserve. Misture novamente na hora de servir.

Em uma frigideira bem quente untada com azeite, doure todos os lados da carne, deixando mal passada no centro. Deixe a carne descansar coberta com papel alímunio por 10 minutos, depois fatie e tempere com sal e pimenta do reino a gosto.

Monte cada prato dispondo folhas de radichio, repolho roxo, fatias de carne, a;gumas bluberries e azeitonas e as beterrabas cortadas em metades. Sirva com o vinagrete de framboesa.

Rende 4 porções.

. Salada branca com queijo feta, confit de alho poró e molho de iogurte com gergelim

400g de palmito pupunha cortado em tiras

200g de cogumelos paris cru laminados

200g de queijo feta cortado em cubos

1 xícara de croutons de pão

para a acelga marinada:

½ acelga (só a parte branca) cortada em tiras finas

1 xícara de vinagre de vinho branco

½ colher de sopa de sal

500ml de água fervente

para o confit:

1 alho poró (só a parte branca) cortado em rodelas finas

1 xícara de azeite

para o molho de iogurte e gergelim:

1 pote de iogurte integral

1 colher de chá de óleo de gergelim

1 colher de sopa de gergelim branco

sal a gosto

Prepare a acelga. Coloque as tiras em um recipiente com o vinagre e o sal. Deixe marinar por cerca de 30 minutos ou mais. Escorra a marinada com o auxílio de uma peneira e lave com a água fervente. Reserve.

Prepare o confit. Em uma panela em fogo baixo, cozinhe o alho poró no azeite por cerca de 15 minutos, sem deixar ferver. Reserve.

Prepare o molho. Misture todos os ingredientes e reserve.

Monte a salada misturando a acelga, o palmito e o alho poró (sem o azeite). Tempere com o molho de iogurte e adicione o queijo, os cogumelos e os croutons.

Rende 4 porções.

. Salada verde com aspargos e peixe em crosta de ervas

500g de robalo ou badejo cortado em cubos

1 clara de ovo

sal a gosto

1 xícara de ervas picadas (salsinha, manjericão, erva-doce, dill)

4 xícaras de folhas verdes variadas

8 talos de aspargo verde

1 embalagem de salgadinho de ervilha com wasabi

para o vinagrete de ervas:

1/3 de xícara de vinagre de vinho branco

¾ de xícara de azeite extra virgem

1 colher de sopa de ervas picadas sal a gosto

Prepare o vinagrete misturando todos os ingredientes. Reserve.

Prepare o peixe banhando os cubos na clara de ovo temperada com sal. Passe os cubos nas ervas e leve para assar em forno preaquecido em temperatura média por cerca de 15 minutos, ou até estarem firmes.

Grelhe os aspargos em uma grelha de fogão e monte o prato, dispondo as folhas verdes, os aspargos e os cubos de peixe. Finalize temperando com o vinagrete de ervas e salpicando com as ervilhas de wasabi.

Rende 4 porções.

Você colocaria veneno no seu prato? O Brasil coloca.

A ideia: 

Quando vemos um produto no mercado, com embalagens coloridas e chamadas atraentes, não pensamos que aquele produto pode estar cheio de defensivos agrícolas. A própria nomenclatura já nos leva ao engano: defensivo. Os agrotóxicos mais ofendem do que defendem. Na realidade é tudo veneno mesmo: 

Definição de Oxford Languages

veneno. substantivo masculino

  1. 1. qualquer substância, preparada ou natural, que por sua atuação química é capaz de destruir ou perturbar as funções vitais de um organismo.

Veneno é isso, é feito para destruir a vida. Destrói a vida das ervas e insetos que vivem nas plantações, mas destrói também as nossas vidas e a de quem trabalha nas lavouras. Os venenos agrotóxicos tem efeitos perenes nas plantas que atingem. Não basta lavar, não vai sair. Um estudo do IDEC publicado recentemente constatou resíduos agrotóxicos em diversos produtos industrializados, como bebidas de soja, salgadinhos, bisnaguinhas e biscoitos

E os efeitos destes venenos no corpo humano, por ingesta ou contato, são muitos e vão de distúrbios cognitivos, renais, danos ao DNA, cânceres diversos, alterações hepáticas e endócrinas e afetam até a saúde mental, podendo causar transtornos de ansiedade e depressão. Será o crescente número de casos de doenças mentais que vivenciamos está sendo também causado por nossa alimentação? 

O Projeto: 

Buscando criar conscientização sobre o assunto, aproveitei meu trabalho como produtora culinária e traduzi isso em imagens, colocando veneno nos alimentos de modo gráfico, direto e imagético. As fotos foram produzidas por mim com a ajuda da Paula Cinini (@thecookieshop) e foram clicadas pela fotógrafa Marina Melchers (@fotofotofoto). Abaixo, imagens do meu trabalho de conceituação e direção para o projeto:

Os venenos: 

Os tóxicos escolhidos para as fotos foram alguns dos venenos mais comuns que podemos encontrar em nosso dia-a-dia. O glifosato, altamente cancerígeno e presente em milhares de hectares de plantações de arroz, cana de açúcar, café, maçã, cítricos, milho, pastagens, soja, fumo, uva, ameixa, banana, cacau, nectarina, pêra, pêssego, seringueiras e até na água, para o controle de algas. É um agrotóxico amplamente utilizado no agro.

A naftalina, um repelente de insetos bastante comum e sabidamente tóxico (causa dores de cabeça, confusão mental, lesões no fígado, entre outros males), foi escolhida para este projeto por ser facilmente reconhecida como veneno, até pouco tempo seu uso doméstico era usual, e isso traz familiaridade e estranhamento ao ser associada aos alimentos.

O raticida (Brodifacoum) talvez seja o mais famoso dos venenos domésticos, sendo usado ilegalmente até contra a saúde humana. É um elemento anticoagulante e que causa falência do fígado. Foi escolhido para este projeto por sua cor rosa e formato de confeitos, o que me leva a pensar com assombro: e se uma criança tem contato com isso? 

Compra e descarte: 

Um dos fatos mais chocantes desde projeto, para mim, foi a facilidade com que consegui comprar estes venenos. Em poucos cliques, comprei os três tóxicos pela internet sem nem ao menos ter que mostrar minha idade. Bastou um login no site de compras e o pagamento. No dia seguinte estavam todos os venenos na minha porta, entregues pelo correio. 

Durante as fotos, usamos os equipamentos de segurança necessários e as fotos foram feitas ao ar livre, já que a naftalina sofre sublimação e espalha-se pelo ar. Ao final, todos os elementos da foto que entraram em contato com os venenos foram cuidadosamente embalados para descarte seguro. 

E essa foi a parte mais difícil deste projeto: o descarte dos venenos. As informações disponíveis na internet indicam devolver as embalagens dos venenos aos fabricantes, o que não era uma solução prática no meu caso, já que não comprei em uma loja e eu teria que enviar pelo correio, colocando mais pessoas em risco de contaminação. Depois de visitar 2 órgãos públicos no meu bairro e conversar com 6 pessoas fui instruída a descartar os resíduos tóxicos no hospital mais próximo, onde foram direcionados à incineração. Mas mesmo nos órgãos públicos os funcionários tiveram muitas dúvidas sobre o descarte. Caso alguma pessoa na mesma situação não tenha a paciência e preocupação que eu tive, é muito provável que acabe descartando produtos tóxicos em lixo comum, dada a dificuldade e falta de informação. 

Conclusão: 

Apesar de extremamente nocivo, o uso de agrotóxicos no Brasil é difundido e incentivado. Só no governo B*lsonar* foram liberados mais de 1.500 novos venenos no mercado e nas lavouras. É urgente encontrarmos formas de dar um basta ao envenenamento dos nossos alimentos, do meio ambiente e da população. 

Um bom começo é escolher produtos orgânicos e de agricultura familiar para seu consumo, mas ações de regulamentação na agricultora e na indústria são urgentes e necessárias. Esteja sempre atento, querido leitor, ao seu voto e posterior monitoramento das ações dos políticos eleitos. Estão indo a favor ou contra nossa saúde? 

A comida como símbolo de poder

Muito já se falou da comida como status e prova de riqueza. A seleção social de quem sabe usar diversos talheres e de quem nunca viu um garfo de peixe; o luxo de quem janta toda semana em restaurante caro e posta no instagram; a bebida que pisxca na balada. São muitos os modos de ostentar através do que comemos. 

Recentemente entrei em contato com algo óbvio, porém velado: a comida como símbolo e moeda de poder. Foram dois episódios em que pude observar isso com muita clareza. 

O primeiro, no genial podcast “A mulher da casa abandonada” de Chico Felitti, que discute o racismo e a escravidão contemporânea. No episódio 5, de título “Outras Tantas Mulheres” o jornalista fala sobre a relação de poder e comida e entrevista a Madalena Gordiano, que por muitos anos viveu em condições análogas à escravidão. Transcrevo aqui o trecho do podcast, retirado do site da Folha

“Nos episódios anteriores, a gente viu que Margarida Bonetti, a mulher da casa abandonada, chegou a jogar sopa quente no rosto da empregada que não pagava e que, quando ela e o então marido viajavam, trancava a geladeira da casa com cadeados. Com Madalena, as cenas são semelhantes. 

Os patrões criaram um ambiente de abandono, crueldade e áreas proibidas. Madalena bateu na porta da família em busca de comida, mas continuou passando fome sob o teto da família Milagres Rigueira. 

[Madalena] Passava fome. Eu era magrinha. 

Se a vissem pegando qualquer alimento, se irritavam e diziam que ela estava acabando com tudo. 

[Madalena] Ahhh eu mexia, eles falavam que eu comia tudo, sentia falta. Não podia não. 

A reação hostil dos empregadores era tão constante que Madalena parou de se arriscar. Passar fome se tornou o cotidiano dela. 

Madalena nunca comeu na mesa dos patrões. O quarto dela também era sala de jantar. Durante as refeições, eles esvaziavam as panelas. Só para mostrar que a comida da empregada não deveria ser a mesma que a deles. 

[Madalena] De manhã, de tarde, comia tudo. Pra não deixar nada pra mim. Comida é comida requentada. 

Se deixassem algo para ela, eram sobras requentadas. A casa era repleta de cadeados e fronteiras invisíveis que Madalena enxergava com clareza. Também havia dentro da casa um teatro de demonstração de poder. Por exemplo: se faziam uma porção de pão de queijo para o café da tarde, davam para Madalena apenas um. E não era por falta de comida. 

[Madalena] Agora as coisas também pra comer. Era assimUM pão de queijo. Ela fazia um, deixava na banqueta lá e por aí ficava. 

Os pães de queijo poderiam ficar na bancada da cozinha até murchar, Madalena não podia pegá-los. E sofria calada.”

Triste, evidente e velado. Um exemplo da comida como símbolo de poder.

O segundo ponto que me levou a pensar a comida e o poder foi este post da pesquisadora Valeska Zanello, que estuda gênero e saúde mental:

 

Esse post deu início a uma série de stories (estão em destaque como Fome e Gênero no perfil @zanellovaleska) em que mulheres relatam violências domésticas na alimentação. Temos lá relatos como: 

“(…) minha mãe muitas vezes deixou de comer e se alimentar para sobrar para nós, seus filhos (…) meu pai sempre ataca a panela e enche seu prato o máximo que pode, repete e nem se importa se tem mais gente para comer ou não.”

“(…) nós sustentamos os homens com nosso dinheiro e esforços (meninas levam comida, meninos refrigerante), mas não comemos da nossa própria comida, vez que quando não são os homens nos deixando à mingua, como nos tristes relatos que compartilhou, é a sociedade que diz que é feio mulher comer ‘muito’, repetir prato, etc. Produzimos e levamos a comida, mas quem come são os homens.”

“(…) quando eu dormia na casa dele, antes de eu acordar, ele passava o café gourmet só para ele e quando eu levantava fazia o café comum para mim.”

“(…) minha filha tem 3 anos, mas quando chega a pizza ela fica desesperada pra comer logo e colocar no prato dela. Percebi que era pq o pai dela comia tudo se deixasse.”

“(…) algum tempo depois perdi o bebê, em casa. Cansada, perdi mto sangue e passando mal, não consegui fazer comida. Pedi canja pelo iFood. Ele veio em casa na hora que o entregador chegou, comeu, brigou e foi embora.”

“Lendo tudo isso percebi que passei por algo parecido. Engordei 20 quilos durante um casamento de 8 anos. Eu sempre comia rápido para conseguir comer os pedaços que eu queria. Eu não gosto de frango e ele só comprava frango, mas quando eu comprava carne ele era o primeiro a comer.”

(…) lembrei que meu namorado sempre terminava o sorvete dele antes de mim e ficava pegando do meu.. eu odiava isso. Tudo que era lanche ele tinha que comer mais que eu, e se eu quisesse comer ‘muito’ também, era criticada por ele. Como se fosse algo muito feio mulher comer muito.”

“(…) lembro várias vezes meu pai ameaçando que ‘tinha que deixar vocês passando fome’ ao receber qualquer contrariedade.”

Transcrevi aqui só alguns dos relatos, nos destaques de Valeska tem muitos outros que vale serem lidos, para que homens e mulheres criem consciência das micro-violências que o machismo, a misoginia e o patriarcado oferecem no dia a dia. E como agir para não perpetuar. 

Lendo tudo isso, podemos ver que tanto nos casos de escravidão moderna, quanto nos casos de machismo, a comida é usada como instrumento de poder. A privação, a distinção de o que é meu e o que é seu (a melhor comida para quem tem mais poder), a determinação de quanto o outro pode ou não comer. São pequenos mas fortes gestos de poder e violência, usados para acuar as pessoas oprimidas e demonstrar o poder do mais forte nas relações: eu controlo o que você come. 

Convido você, que me lê, a refletir sobre isso. E me contar se perceber violências e jogo de poder alimentar na sua rotina. 

Lembrando que: o governo atual tem sequestrando nosso poder de compra. Mais uma violência alimentar, atacando a cesta básica dos brasileiros. 

The four hundred

Já faz um tempo que escrever tem sido difícil para mim. A sobrecarga de tarefas da rotina, a ausência de governo e economia no país, a tristeza dos arredores cada vez que eu saio na rua e vejo mais gente sem ter o que comer e onde morar. Isso tudo e mais problemas tem acabado com minha vontade de escrever. E até de pensar, ás vezes. 

Mas mesmo não escrevendo muito ultimamente, recebi de amigas vários convites para um evento de escritoras. No começo hesitei, não tenho me sentido escritora, mas elas me lembraram do tanto que já escrevi antes. Me lembraram que isso ainda está em mim e que eu pertencia sim, ao grupo. E olha, que grupo. 

Reunidas num domingo de manhã na Praça Charles Muller, que já foi cenário de muita cena de terror, cerca de 400 mulheres escritoras estiveram juntas para dizer: Viva a escrita feminina. Por muito tempo as vozes femininas não foram ouvidas e estivemos lá em peso para mudar essa situação. Enchemos a Praça de força, poder, energia, protesto, crianças, cachorros e emoção de arrancar suspiros e lágrimas e arrepios. 

E ali, sentada na arquibancada do Estádio do Pacaembu e rodeada de mulheres que não se calam, eu percebi que é nas piores situações que falar (e escrever) é mais importante. É preciso voltar, e fazer desse um exercício frequente, para que se torne uma ferramenta de conforto em meio ao caos. Assim como cozinhar. 

foto de Mariana Vieira, na FSP

Escrever é Slow Cooking

Escrever é cozinhar demorado. Uma peça grande de carne no forno, a lasanha de mil camadas e dois molhos diferentes e um monte de queijo. A cada parágrafo, uma revisão, mais uma adição. Aquele tempero que falta quando você prova ou lê de novo. 

As mídias sociais são fast food e chegam por delivery. Você escolhe o que quer, segue a trend, clica um botão e o conteúdo já está ali meio pronto. O máximo que você tem que fazer é receber e colocar no seu prato, adaptar a trend à sua cara. Desenrola, bate, joga no pratinho.

Os dois tem suas vantagens. Mas eu preciso cozinhar mais. 

umas 4 horas de forno baixo

© Mixirica. Tudo nosso.

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