Vai que estou voltando

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Vai que estou voltando

Duas calças, cinco blusas, sete calcinhas, dois sutiãs, um agasalho, um casaco, duas encharpes, meu necessáire e duas paçocas. De acordo com as últimas malas que fiz para viajar isso é o que preciso para viver com conforto em qualquer lugar. Fiz essa mesma mala nas minhas últimas viagens, uma de 8 e outra de 25 dias. Em ambas essa quantidade de coisas bastou.

Eu viajo para pesquisar alimentos, para conhecer culturas e, principalmente, para buscar perspectiva. Ver as coisas de longe, sentir saudades, saber o que faz falta e o que não faz. Na minha viagem de 25 dias com essa mala de mão foi quando, depois de muito procurar, descobri o rumo que eu queria para meus próximos anos. Onde você se vê daqui a 5 anos?

Naquela viagem eu me vi em paz, eu e minha mala de mão. E foi essa sensação que escolhi ter também nos períodos em que não estou em férias. Por isso, voltando para São Paulo eu desfiz sociedades, demiti funcionários, entreguei imóveis e cortei laços. Limpei armários, doei panelas, eliminei acervos, revi os livros e tirei caixas e caixas de peso dos ombros. Deixei o pó sair e o ar entrar, preenchendo de vida o vazio. Pois tudo que preciso cabe em uma mala, e dentro do coração.

Foi nessa limpa que fechamos o Bergamota Café, que saí do estúdio na Aspicuelta e que eliminei um cômodo do apartamento, acomodando nele o meu espaço de trabalho. Calcei um tênis e vendi o carro. Sigo na contra-mão, com a certeza de que meu lugar é onde a multidão que quer muito mais de tudo não está.

Hoje tenho muito menos tudo, exceto uma preciosidade: tempo. Com menos coisas para administrar ganhei tempo, o bem mais valioso. Tempo para estudar, para cozinhar, para cultivar talentos, para encontrar queridos, para cuidar das crias, para namorar, para dar atenção e foco ao que realmente importa. E para voltar a escrever aqui.