Fluxos de consciência

Acompanhe

As metades da laranja

Fabio Jr cantou e minha avó difundiu: existem as metades da laranja e cada um acha seu par. Essa ideia é muito bem aceita na área dos relacionamentos amorosos. Eu mesma acho uma farsa. Acho que em se tratando de amor, cada um tem que ser uma laranja inteira e se for para somar que seja para construir um pomar. Laranjas inteiras são fortes e juntas se multiplicam. Laranjas pela metade ressecam, mofam e morrem. Mesmo se grudadas uma na outra.

Mas só acho isso para o amor. No trabalho eu defendo a vó e lenda da laranja. Principalmente na minha área de atuação, que envolve senso estético, estilo e criatividade. Os clientes me procuram com ideias muito específicas e acham que sou a pessoa certa para executa-las. Às vezes eu sou, mas às vezes sei que aquilo não é minha praia (ou metade de laranja) e indico o trabalho para algum outro produtor(a).

Por isso não me ofendo e nem me avexo quando algum orçamento passa por mim e vai embora. Principalmente se o problema foi prazo, preço, disponibilidade de data. Se uma questão prática dessas faz o cliente escolher outro profissional fico feliz de ver ele achar outra metade de laranja, por que é sinal de que não se importava com meu trabalho e que qualquer laranja serviria. Quero do meu lado só quem valoriza, acredita e quer criar mais frutos. Minhas metades sabem quem elas são. : )

Sextou

Machismo, tensão de estréia, alguém que desacredita o trabalho alheio, pessoas conectadas por um ideal. Essa semana foi de extremos e de exemplos bem vivos e pulsantes de todas as faces das moedas, nesse final de 7 dias punks (e pancs) consegui ver:

. acredita na tua verdade, que o respeito mútuo e no que nos rodeia, compensa.
. faz teu trampo e deixa os outros fazerem os deles. Tem espaço para todos.
. respeita. O vizinho, o prestador de serviço, o ex, os bichos, o lixo, o luxo, o universo todo. E vc será respeitado tb. <3

Trilha do dia: Criolo – A esquiva da esgrima

RIP redes

Não acredito mais em redes sociais. Depois das eleições de 2018, em que uma enxurrada de mentiras tomou as redes e instituiu o apocalipse social e ecológico no Brasil, parei de achar divertido esse meio de comunicação virtual. É evidente que só quem se diverte é o dono da rede, que recebe rios de dinheiro para programar algoritmos e criar falsas tendências.

I’m opting out. E por isso volto a escrever nesse espaço. Para que quem quiser me ler possa vir por livre vontade, não porque robôs indicaram o caminho. Ainda tem meu nome e alguns posts nas redes, meu trabalho exige. Mas minhas ideias abertas ao mundo terão morada só por aqui. Foco nos devaneios, mas ainda com muita comida. Um reflexo da minha vida offline, em que 90% do tempo os assuntos são de comer.

Quem quiser me acompanhar nesse fluxo de consciência, puxa uma cadeira e toma comigo um chá de camomila.

Em SP Deus é uma nota de cem

Foi Mano Brown que disse, eu concordo. E acho que vale muito pro Natal. Fora meus pais, não conheço ninguém que comemore o nascimento ilustre, a maioria das pessoas comemora o 13o, a ostentação, as compras. Todo ano me sinto comemorando mais um aniversário do capitalismo, ele vestido de Noel, pairando com as renas sobre as nossas cabeças (e elas não usam fraldas).

A criança ali da manjedoura ia estar felizona com um misto quente e um cupcake de aniversário, com os amiguinhos correndo no quintal. Não ia fazer questão de peru, tender, frutas secas, champanhe, árvore de enfeite dourado, luz que veio da China e uma pá de presente largado no chão.

Estou aqui escrevendo isso com um peru no forno pra família, pensando na minha parcela nessa comemora(ostenta)ção. Este ano preparei outros 12 perus pro trabalho. Praticamente uma granja. Todos foram parar no lixo depois da foto, nenhum alimentou a barriga de ninguém, só os olhos. O propósito deles foi fazer com que os outros quisessem comer peru. Foi ditar o padrão, indicar o “dress code” da festa.

Até o cliente (um dos maiores vendedores de Peru dessa terra) me contou: as pessoas não gostam de Peru, compram porque fica bonito na mesa. Acham a carne seca, sem graça, mas querem ter ele na mesa. Por que é vistoso. Por que podem. Pesquisas comprovam.

Minha mesa vai ter peru, com esse gostinho amargo, mas vai. Mas espero que seja diferente no ano que vem. Por que cada vez mais estou do lado do Brown, querendo: um terreno no mato só seu, sem luxo, descalço, nadar no riacho, sem fome, pegando as frutas no cacho.

Boas festas proceis. Que a gente possa aprender e melhorar a cada ano, deixando esse aprendizado de herança pros nossos filhos. Estamos aqui só de passagem, feito aqueles perus, mas podemos escolher se queremos só encher os olhos de alguém, ou alimentar de verdade.

<3

Carta para Dadi

Dadi querida,

Aquele sagu gelado de leite de coco e melancia não foi a única coisa refrescante do nosso almoço de hoje. A conversa sobre como precisamos voltar a escrever, eu aqui no Mixirica e você no Dadivosa, veio de encontro a mim como aquela brisa de fim de tarde na beira do mar: que chega de repente, arrepia, renova o ar, a esperança e as vontades todas.

Por isso resolvi escrever este post para nós. Para continuar a conversa boa e compartilhar contigo alguns pensamentos que compilei nas últimas semanas e que me trouxeram de volta ao computador. Todos se encaixam na frase: “Por que preciso escrever”.

Por exercício, para treinar a lógica, a memória, o foco, brincar de vocabulário e ir além da redação de e-mails e receitas para clientes. Para manter torneado o músculo da escrita, como me ensinou a maravilhosa Cris Lisboa.

Por que ajuda a organizar as ideias, a priorizar e mostrar o caminho mais lógico para transformar pensamentos em prática.

Para segurar por mais tempo um pensamento. Para que ele vire matéria, mesmo que em bytes. Por que o que vai pro papel (ou para a tela) deixa de ser massa cinzenta, vira vida.

Por que criar é mais prazeroso do que consumir. É abrir diálogos e ter espaço para compartilhar ideias, desabafar angústias e, por que não, catalogar receitas.

Para mim.
Para você.
Para quem mais quiser saber.

Em uma conversa que assisti na Primavera dos Livros semana passada, um dos autores presentes citou o livro da Carolina de Jesus. A Carolina escreveu o que se passava na favela do Canindé na década de 60. Mulher, negra, catadora de papel. Por que ela escreveu, as pessoas dos 13 outros países em que foram publicadas traduções do seu livro puderam imaginar o que é ser mulher, negra e catadora de papel na favela do Canindé. Coisa importante e sofrida de saber. O texto dela abriu mentes e promoveu mudanças.

Pode ser que minha vida não seja tão interessante quanto a da Carolina, mas criar uma filha, dois cachorros, dois gatos e dois sapos enquanto tento ganhar a vida cozinhando tem lá seus desafios. Vai que algum causo meu também tem o poder de abrir a mente de alguém? Mudar, mesmo que um cadinho só, um pedaço de mundo? Se eu não escrever a possibilidade não vai existir, e nós nunca vamos saber…

Por hora, é isso que tenho pra te dizer, minha amiga. E mesmo que ninguém leia a gente, eu estou aqui sabendo que minhas palavras vão sair do meu peito e chegar nos seus olhos, assim como as tuas chegarão aos meus. Então me dá aqui a mão, vamos abrir uma brecha nos nossos dias corridos para fazer ideias palpáveis e garantir nossa voz na posteridade. Estamos juntas nesse desafio de escrever.

Amor,
Tatu

© Mixirica. Tudo nosso.

Back to Top