Fluxos de consciência

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Fome 24/7

7h30 da manhã revisei receitas. 9h da manhã reli uma apresentação com imagens de comida. 10h busquei referências de montagens de pratos para um projeto. 12h salvei as imagens em um ppt. 13h almocei com a filha perto da escola dela por que era dia de faxina e eu não quis atrapalhar sujando a cozinha. 14h vi as fotos que acabaram de chegar da última sessão do restaurante. 15h assisti os videos de referência que vieram em um pedido de orçamento. 16h ajudei a faxineira a limpar a geladeira e tirar os restos abandonados. 17h montei a lista de compras para a próxima foto. 18h passou o dia todo e o único assunto foi comida. E todo dia é assim.

As metades da laranja

Fabio Jr cantou e minha avó difundiu: existem as metades da laranja e cada um acha seu par. Essa ideia é muito bem aceita na área dos relacionamentos amorosos. Eu mesma acho uma farsa. Acho que em se tratando de amor, cada um tem que ser uma laranja inteira e se for para somar que seja para construir um pomar. Laranjas inteiras são fortes e juntas se multiplicam. Laranjas pela metade ressecam, mofam e morrem. Mesmo se grudadas uma na outra.

Mas só acho isso para o amor. No trabalho eu defendo a vó e lenda da laranja. Principalmente na minha área de atuação, que envolve senso estético, estilo e criatividade. Os clientes me procuram com ideias muito específicas e acham que sou a pessoa certa para executa-las. Às vezes eu sou, mas às vezes sei que aquilo não é minha praia (ou metade de laranja) e indico o trabalho para algum outro produtor(a).

Por isso não me ofendo e nem me avexo quando algum orçamento passa por mim e vai embora. Principalmente se o problema foi prazo, preço, disponibilidade de data. Se uma questão prática dessas faz o cliente escolher outro profissional fico feliz de ver ele achar outra metade de laranja, por que é sinal de que não se importava com meu trabalho e que qualquer laranja serviria. Quero do meu lado só quem valoriza, acredita e quer criar mais frutos. Minhas metades sabem quem elas são. : )

Sextou

Machismo, tensão de estréia, alguém que desacredita o trabalho alheio, pessoas conectadas por um ideal. Essa semana foi de extremos e de exemplos bem vivos e pulsantes de todas as faces das moedas, nesse final de 7 dias punks (e pancs) consegui ver:

. acredita na tua verdade, que o respeito mútuo e no que nos rodeia, compensa.
. faz teu trampo e deixa os outros fazerem os deles. Tem espaço para todos.
. respeita. O vizinho, o prestador de serviço, o ex, os bichos, o lixo, o luxo, o universo todo. E vc será respeitado tb. <3

Trilha do dia: Criolo – A esquiva da esgrima

RIP redes

Não acredito mais em redes sociais. Depois das eleições de 2018, em que uma enxurrada de mentiras tomou as redes e instituiu o apocalipse social e ecológico no Brasil, parei de achar divertido esse meio de comunicação virtual. É evidente que só quem se diverte é o dono da rede, que recebe rios de dinheiro para programar algoritmos e criar falsas tendências.

I’m opting out. E por isso volto a escrever nesse espaço. Para que quem quiser me ler possa vir por livre vontade, não porque robôs indicaram o caminho. Ainda tem meu nome e alguns posts nas redes, meu trabalho exige. Mas minhas ideias abertas ao mundo terão morada só por aqui. Foco nos devaneios, mas ainda com muita comida. Um reflexo da minha vida offline, em que 90% do tempo os assuntos são de comer.

Quem quiser me acompanhar nesse fluxo de consciência, puxa uma cadeira e toma comigo um chá de camomila.

Em SP Deus é uma nota de cem

Foi Mano Brown que disse, eu concordo. E acho que vale muito pro Natal. Fora meus pais, não conheço ninguém que comemore o nascimento ilustre, a maioria das pessoas comemora o 13o, a ostentação, as compras. Todo ano me sinto comemorando mais um aniversário do capitalismo, ele vestido de Noel, pairando com as renas sobre as nossas cabeças (e elas não usam fraldas).

A criança ali da manjedoura ia estar felizona com um misto quente e um cupcake de aniversário, com os amiguinhos correndo no quintal. Não ia fazer questão de peru, tender, frutas secas, champanhe, árvore de enfeite dourado, luz que veio da China e uma pá de presente largado no chão.

Estou aqui escrevendo isso com um peru no forno pra família, pensando na minha parcela nessa comemora(ostenta)ção. Este ano preparei outros 12 perus pro trabalho. Praticamente uma granja. Todos foram parar no lixo depois da foto, nenhum alimentou a barriga de ninguém, só os olhos. O propósito deles foi fazer com que os outros quisessem comer peru. Foi ditar o padrão, indicar o “dress code” da festa.

Até o cliente (um dos maiores vendedores de Peru dessa terra) me contou: as pessoas não gostam de Peru, compram porque fica bonito na mesa. Acham a carne seca, sem graça, mas querem ter ele na mesa. Por que é vistoso. Por que podem. Pesquisas comprovam.

Minha mesa vai ter peru, com esse gostinho amargo, mas vai. Mas espero que seja diferente no ano que vem. Por que cada vez mais estou do lado do Brown, querendo: um terreno no mato só seu, sem luxo, descalço, nadar no riacho, sem fome, pegando as frutas no cacho.

Boas festas proceis. Que a gente possa aprender e melhorar a cada ano, deixando esse aprendizado de herança pros nossos filhos. Estamos aqui só de passagem, feito aqueles perus, mas podemos escolher se queremos só encher os olhos de alguém, ou alimentar de verdade.

<3

© Mixirica. Tudo nosso.

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