Fluxos de consciência

Acompanhe

Resolução Vinte.Vinte

Neste último dia de um ano em que caí na ladeira (literalmente, com direito a nove pinos; e figurativamente, 2019 foi tiro porrada e bomba senhores), resolvi aderir ao minimalismo e tenho só uma resolução de ano novo: VOU COZINHAR MAIS.

Ok, parece simples, mas vamos destrinchar essa resolução em suas implicações implícitas e vocês verão que ela esconde muitas outras vantagens e sub-resoluções bastante populares.

A mais popular de todas sendo: esse ano eu vou emagrecer.

Você fazer sua própria comida ajuda a emagrecer. Você escolhe o que vai colocar na comida, se livra de produtos industrializados (que mesmo bons restaurantes muitas vezes usam nos seus pratos), faz melhores escolhas de acordo com o que precisa nutricionalmente, palativamente e emocionalmente. Nutrição completa, à sua escolha. Isso e a sensação de ter feito algo delicioso com suas próprias mãos e habilidades.

Outra resolução popular é: vou juntar dinheiro.

Mais uma vantagem secreta de cozinhar sua própria comida. Você ganha controle sobre seu orçamento, se livra de custos extras (taxas de entregas, gorjetas, custos de rolhas) e tentações (a sobremesa que acaba de passar na mesa do lado) e sabe exatamente quanto vai gastar. Dez entre dez economistas concordam que comer em casa é mais econômico.

Uma resolução atual e muito importante: vou fazer minha parte em preservar a natureza.

Evitando idas a restaurantes (uber, gasolina, ônibus, poluição, trânsito) ou resistindo à tentação de pedir comida em casa (moto, gasolina, poluição física e sonora, mil embalagens descartáveis inúteis) você já estará contribuindo com a sustentabilidade e com a preservação da nossa única casa – a terra, essa redondeza linda e única. E pode também escolher de quem você irá comprar seus ingredientes. Eu indico comprar de produtores, orgânicos, preocupados com o bem-estar animal, agricultores familiares, cooperativas locais. O consumo ético é a política do futuro.

A resolução familiar preferida é: vou passar mais tempo com meus pais e/ou filhos.

Cozinhem juntos. Ensine através do exemplo. Mostre para seus filhos como se faz, aprenda com seus pais, tenham aulas juntos se for preciso. Cozinhar pode ser até mais divertido do que comer juntos. A nutrição chega até nos laços familiares e sociais.

Por isso minha resolução para Vinte.Vinte é uma só: cozinhar.

Feliz nova década para todos.

Minha pia, minha vida

O tipo de sujeira da minha pia me traz (ou não) bem-estar. Doidera? Sim. Mas acompanha aqui meu raciocínio.

Estou de dieta. Nada muito radical, apenas algumas restrições de alimentos inflamatórios para tentar controlar melhor a rosácea que me afeta e tem estado ruim nos últimos meses. Mas alguns dos cortes foram alimentos animais gordos. Estou comendo apenas peixes e frutos do mar.

Além da melhora da pele (ufa) e de eu ter desinchado um pouco (consequências da alimentação) a principal diferença que notei na dieta foi minha pia. Muito mais agradável de limpar, tem dias em que só ligo a água quente e nem uso sabão.

A sujeira sai fácil, não gruda, posso deixar esperando algumas horas que o máximo de gordura endurecida que vai ter vai ser de um azeite aqui ou resto de salmão ali. E sabe o que eu penso: minhas veias e organismo devem estar mais limpos também.

Já cozinhou costela de boi? E deixou para lavar a louça depois e a gordura endureceu e virou uma crosta branca grossa e nojenta que você teve que derreter com água fervente ou não ia embora?

Agora imagina isso dentro de você, nas suas veias. Seu corpo não chega a cem graus para derreter aquela gordura toda.

E refrigenrante? Já viu aqueles videos de refrigerante desentupindo privada? Amolecendo ossos? Imaginou isso nas suas frágeis entranhas?

A próxima vez que for lavar a louça pense nisso. Imagina que o que sobrou ali na pia é o que vai estar dentro de você. Talvez ajude a se alimentar melhor. Sei que tem me ajudado muito.

Ouvi na feira

Escolhendo brócolis (estão caríssimos) na feira, ouvi o vendedor da banca conversando com o colega. Entre as salsinhas e as cebolinhas e as berinjelas fatiadas, ele dizia:

“- Aí ela me disse, é mano, mas cê não tem tempo de namorar. Fica aí cheio de coisa e não tem tempo pra namorar, como é que a gente vai fazer? Não rola.”

Eu te entendo amigo. Same here.

Só love, só love

Disclaimer: O post a seguir não tem nada a ver com comida. Ou tem, se formos levar em conta que para sair comigo a pessoa precisa estar disposta a conhecer todos os restaurantes da cidade, já que comer é – obviamente – meu passatempo preferido. Mas vamos lá.

Um dia me apaixonei. Aquela coisa louca, avoada, sonhadora, borboletas na barriga e euforia à toa. Fiz um playlist pensando nessa paixão. Tempo vai, tempo vem. A paixão passou, mas o playlist ficou.

Veio outra paixão arrebatadora e o playlist voltou às mais tocadas do radinho (no caso app, afinal 2019). Ganhou uma música ou outra que combinava com a nova personificação da paixão. Foi ouvido, dançado, celebrado, amado. E depois desamado. Essa foi fugaz e fugidia. Mas o playlist seguiu lá. Quietinho, esperando a próxima.

E esse ciclo se repetiu algumas vezes, e cada vez que voltava o sentimento, voltavam as músicas e as sensações e a vida ficava cheia de corações e borboletas.

Até que um dia me deu vontade de tocar o playlist da paixão mesmo sem paixão. E fui percebendo que as músicas não eram para fora de mim, eram todas só para mim. E que minha paixão vem de dentro, independente de ter alguém fora. E que o sentimento é tão intenso e lindo e forte como se fosse pelo outro. E quando você percebe isso, a necessidade de outro fica menor. E a carência some.

E estou há quase um ano solteira e mais feliz e apaixonada do que jamais estive. Por que sei que a paixão vive em mim. Solteira, mas nunca sozinha (cof, cof). Por que solidão eu nunca tenho (pudera, com filha, dois cachorros, dois gatos, a solidão é até celebrada por aqui em pequenas férias de isolamento total).

E é isso. Resolvi compartilhar essa paixão com vocês. Por que sei que muita gente ainda precisa perceber que o valor, a aprovação, a felicidade, a paixão, é tudo interno. Não é fácil de achar, mas está aí, e todo mundo tem e é infinito – diferente dos amores externos. Ninguém pode te dar e basta você querer buscar. Faz teu playlist de amor interno. E se convida pra jantar. <3

2 + 2 são o mundo todo

Anos atrás li um artigo, que não vou lembrar de quem nem do que era, mas em que o autor comparava cozinhar com costurar. Falava que conforme as roupas passaram a vir prontas as pessoas pararam de aprender a costurar. E ele apostava que o mesmo aconteceria com a comida. Quanto maior a industrialização menor o aprendizado.

Isso me assustou bagarai. Por que faz todo sentido. Eu não sei costurar. Compro roupa pronta por isso e nem quero aprender a costurar. Na economia atual e com o shopping aqui ao lado eu realmente não preciso costurar.

E vejo as pessoas ao meu redor que não sabem cozinhar fazendo o mesmo. Não aprendem a cozinhar porque não precisam. Compram pronto, pedem delivery. As embalagens e poluição e a ignorância sobre o que está dentro daquela comida são só um detalhe. O que importa é a conveniência. Do mesmo jeito que não sei que chinês maltratado costurou a minha roupa, ou fez meu telefone. A conveniência nos libera do trabalho, e também do conhecimento.

O que me faz pensar que: quanto mais industrialização, menos conhecimento.

Mesmo quem trabalha nas fábricas não precisa saber o processo todo, só precisa saber a função que exerce. Autômato, apertador de botão, recebedor de salário, comprador de comida pronta, de roupa pronta, vivedor de vida pronta. Não somos todos?

E acho também que o inverso é verdadeiro: quanto menor o conhecimento, maior a industrialização.

Quanto menos você sabe, menos irá questionar, e mais você irá comprar. Uma lindeza para a economia. E um desastre para a qualidade de vida e pro meio ambiente. Por que tu acha que querem tirar investimento de educação?

© Mixirica. Tudo nosso.

Back to Top