Fluxos de consciência

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Carta para Dadi

Dadi querida,

Aquele sagu gelado de leite de coco e melancia não foi a única coisa refrescante do nosso almoço de hoje. A conversa sobre como precisamos voltar a escrever, eu aqui no Mixirica e você no Dadivosa, veio de encontro a mim como aquela brisa de fim de tarde na beira do mar: que chega de repente, arrepia, renova o ar, a esperança e as vontades todas.

Por isso resolvi escrever este post para nós. Para continuar a conversa boa e compartilhar contigo alguns pensamentos que compilei nas últimas semanas e que me trouxeram de volta ao computador. Todos se encaixam na frase: “Por que preciso escrever”.

Por exercício, para treinar a lógica, a memória, o foco, brincar de vocabulário e ir além da redação de e-mails e receitas para clientes. Para manter torneado o músculo da escrita, como me ensinou a maravilhosa Cris Lisboa.

Por que ajuda a organizar as ideias, a priorizar e mostrar o caminho mais lógico para transformar pensamentos em prática.

Para segurar por mais tempo um pensamento. Para que ele vire matéria, mesmo que em bytes. Por que o que vai pro papel (ou para a tela) deixa de ser massa cinzenta, vira vida.

Por que criar é mais prazeroso do que consumir. É abrir diálogos e ter espaço para compartilhar ideias, desabafar angústias e, por que não, catalogar receitas.

Para mim.
Para você.
Para quem mais quiser saber.

Em uma conversa que assisti na Primavera dos Livros semana passada, um dos autores presentes citou o livro da Carolina de Jesus. A Carolina escreveu o que se passava na favela do Canindé na década de 60. Mulher, negra, catadora de papel. Por que ela escreveu, as pessoas dos 13 outros países em que foram publicadas traduções do seu livro puderam imaginar o que é ser mulher, negra e catadora de papel na favela do Canindé. Coisa importante e sofrida de saber. O texto dela abriu mentes e promoveu mudanças.

Pode ser que minha vida não seja tão interessante quanto a da Carolina, mas criar uma filha, dois cachorros, dois gatos e dois sapos enquanto tento ganhar a vida cozinhando tem lá seus desafios. Vai que algum causo meu também tem o poder de abrir a mente de alguém? Mudar, mesmo que um cadinho só, um pedaço de mundo? Se eu não escrever a possibilidade não vai existir, e nós nunca vamos saber…

Por hora, é isso que tenho pra te dizer, minha amiga. E mesmo que ninguém leia a gente, eu estou aqui sabendo que minhas palavras vão sair do meu peito e chegar nos seus olhos, assim como as tuas chegarão aos meus. Então me dá aqui a mão, vamos abrir uma brecha nos nossos dias corridos para fazer ideias palpáveis e garantir nossa voz na posteridade. Estamos juntas nesse desafio de escrever.

Amor,
Tatu

Como fazer amigos e influenciar pessoas

Auto-ajuda, um gênero literário controverso e mui vendável. Dizem que teve início em 1936 com a publicação de um grande clássico, o livro “Como fazer amigos e influenciar pessoas” do Carnegie Hall, que vende mais que pãozinho quente até hoje.

Nesse livro Carnegie dá dicas de empatia, ensina técnicas de persuasão e divide em passos o caminho a ser traçado para o sucesso social. Não critique, aprecie. Se interesse, ouça. Sorria, lembre nomes. Faça o outro se sentir importante. Respeite opiniões diferentes da sua. Admita seus erros. Encoraje.

Verdades, óbvias até. Mas quando precisam ser atitudes requerem treino e repetição até se tornarem hábito e se transformarem em amigos, influência e open bar na vida.

Não sou Carnegie Hall, mas também tenho uma dica de como fazer amigos e influenciar pessoas: LEVE COMIDA.

Levar comida abre portas, acredite. Você vai estar carregando a comida, vai estar com as mãos ocupadas e alguém vai se oferecer para abrir a porta para você. Pronto, uma porta aberta.

Quando você carrega comida as pessoas ficam curiosas, querem saber o que é, se é aquilo que está cheirando bem, onde vai ser servido, se podem comer um pedaço. Mesmo quem não quer comer vai pedir, só para quebrar o gelo, para puxar conversa.

E isso acontece mesmo. Uma parte do meu trabalho é montar mesas de merchandising em programas de TV – aqueles inserts de marcas que aparecem ao longo dos programas. Eu vou para o estúdio carregada de comida, nunca falo com ninguém e todo mundo puxa-assunto. É batata. Já fiquei melhor amiga de contrarregra, ganhei Olá do Mc Guiné, dei paçoquinha pro Marquito e ganhei beijo do Raul Gil. Não puxo assunto, mas carrego comida, então o assunto já está ali.

Recomendo essa tática de influência também em festas. Vai ter comida na festa, eu sei, mas brigadeiro e bala de coco nunca é demais. Chegue com um pacote e você vai ser levado direto à cozinha, que é sempre o coração das festas. Ou já vai poder oferecer bala para todos no salão e ter um assunto instantâneo: Quer bala? Quero! Que bala boa! De onde é? Ah, eu compro perto do meu trabalho. Onde você trabalha? E por aí vai…

Dale Carnegie que me desculpe, mas fazer amigos e influenciar pessoas é muito mais fácil do que ele dizia.

 

 

Vai que estou voltando

Duas calças, cinco blusas, sete calcinhas, dois sutiãs, um agasalho, um casaco, duas encharpes, meu necessáire e duas paçocas. De acordo com as últimas malas que fiz para viajar isso é o que preciso para viver com conforto em qualquer lugar. Fiz essa mesma mala nas minhas últimas viagens, uma de 8 e outra de 25 dias. Em ambas essa quantidade de coisas bastou.

Eu viajo para pesquisar alimentos, para conhecer culturas e, principalmente, para buscar perspectiva. Ver as coisas de longe, sentir saudades, saber o que faz falta e o que não faz. Na minha viagem de 25 dias com essa mala de mão foi quando, depois de muito procurar, descobri o rumo que eu queria para meus próximos anos. Onde você se vê daqui a 5 anos?

Naquela viagem eu me vi em paz, eu e minha mala de mão. E foi essa sensação que escolhi ter também nos períodos em que não estou em férias. Por isso, voltando para São Paulo eu desfiz sociedades, demiti funcionários, entreguei imóveis e cortei laços. Limpei armários, doei panelas, eliminei acervos, revi os livros e tirei caixas e caixas de peso dos ombros. Deixei o pó sair e o ar entrar, preenchendo de vida o vazio. Pois tudo que preciso cabe em uma mala, e dentro do coração.

Foi nessa limpa que fechamos o Bergamota Café, que saí do estúdio na Aspicuelta e que eliminei um cômodo do apartamento, acomodando nele o meu espaço de trabalho. Calcei um tênis e vendi o carro. Sigo na contra-mão, com a certeza de que meu lugar é onde a multidão que quer muito mais de tudo não está.

Hoje tenho muito menos tudo, exceto uma preciosidade: tempo. Com menos coisas para administrar ganhei tempo, o bem mais valioso. Tempo para estudar, para cozinhar, para cultivar talentos, para encontrar queridos, para cuidar das crias, para namorar, para dar atenção e foco ao que realmente importa. E para voltar a escrever aqui.

© Mixirica. Tudo nosso.

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