Fluxos de consciência

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Ouvi na feira

Escolhendo brócolis (estão caríssimos) na feira, ouvi o vendedor da banca conversando com o colega. Entre as salsinhas e as cebolinhas e as berinjelas fatiadas, ele dizia:

“- Aí ela me disse, é mano, mas cê não tem tempo de namorar. Fica aí cheio de coisa e não tem tempo pra namorar, como é que a gente vai fazer? Não rola.”

Eu te entendo amigo. Same here.

Só love, só love

Disclaimer: O post a seguir não tem nada a ver com comida. Ou tem, se formos levar em conta que para sair comigo a pessoa precisa estar disposta a conhecer todos os restaurantes da cidade, já que comer é – obviamente – meu passatempo preferido. Mas vamos lá.

Um dia me apaixonei. Aquela coisa louca, avoada, sonhadora, borboletas na barriga e euforia à toa. Fiz um playlist pensando nessa paixão. Tempo vai, tempo vem. A paixão passou, mas o playlist ficou.

Veio outra paixão arrebatadora e o playlist voltou às mais tocadas do radinho (no caso app, afinal 2019). Ganhou uma música ou outra que combinava com a nova personificação da paixão. Foi ouvido, dançado, celebrado, amado. E depois desamado. Essa foi fugaz e fugidia. Mas o playlist seguiu lá. Quietinho, esperando a próxima.

E esse ciclo se repetiu algumas vezes, e cada vez que voltava o sentimento, voltavam as músicas e as sensações e a vida ficava cheia de corações e borboletas.

Até que um dia me deu vontade de tocar o playlist da paixão mesmo sem paixão. E fui percebendo que as músicas não eram para fora de mim, eram todas só para mim. E que minha paixão vem de dentro, independente de ter alguém fora. E que o sentimento é tão intenso e lindo e forte como se fosse pelo outro. E quando você percebe isso, a necessidade de outro fica menor. E a carência some.

E estou há quase um ano solteira e mais feliz e apaixonada do que jamais estive. Por que sei que a paixão vive em mim. Solteira, mas nunca sozinha (cof, cof). Por que solidão eu nunca tenho (pudera, com filha, dois cachorros, dois gatos, a solidão é até celebrada por aqui em pequenas férias de isolamento total).

E é isso. Resolvi compartilhar essa paixão com vocês. Por que sei que muita gente ainda precisa perceber que o valor, a aprovação, a felicidade, a paixão, é tudo interno. Não é fácil de achar, mas está aí, e todo mundo tem e é infinito – diferente dos amores externos. Ninguém pode te dar e basta você querer buscar. Faz teu playlist de amor interno. E se convida pra jantar. <3

2 + 2 são o mundo todo

Anos atrás li um artigo, que não vou lembrar de quem nem do que era, mas em que o autor comparava cozinhar com costurar. Falava que conforme as roupas passaram a vir prontas as pessoas pararam de aprender a costurar. E ele apostava que o mesmo aconteceria com a comida. Quanto maior a industrialização menor o aprendizado.

Isso me assustou bagarai. Por que faz todo sentido. Eu não sei costurar. Compro roupa pronta por isso e nem quero aprender a costurar. Na economia atual e com o shopping aqui ao lado eu realmente não preciso costurar.

E vejo as pessoas ao meu redor que não sabem cozinhar fazendo o mesmo. Não aprendem a cozinhar porque não precisam. Compram pronto, pedem delivery. As embalagens e poluição e a ignorância sobre o que está dentro daquela comida são só um detalhe. O que importa é a conveniência. Do mesmo jeito que não sei que chinês maltratado costurou a minha roupa, ou fez meu telefone. A conveniência nos libera do trabalho, e também do conhecimento.

O que me faz pensar que: quanto mais industrialização, menos conhecimento.

Mesmo quem trabalha nas fábricas não precisa saber o processo todo, só precisa saber a função que exerce. Autômato, apertador de botão, recebedor de salário, comprador de comida pronta, de roupa pronta, vivedor de vida pronta. Não somos todos?

E acho também que o inverso é verdadeiro: quanto menor o conhecimento, maior a industrialização.

Quanto menos você sabe, menos irá questionar, e mais você irá comprar. Uma lindeza para a economia. E um desastre para a qualidade de vida e pro meio ambiente. Por que tu acha que querem tirar investimento de educação?

Começa em casa

Usar mel no rosto ao invés de máscara de farmácia: menos embalagem.
Usar levain ao invés de fermento pronto: menos embalagem.
Cultivar suas próprias ervas em vasos: menos embalagem e maior consciência natural.
Você pode, tenta.

Mãe de humano

Dia das mães hoje e como tudo nessa época pós-apocalíptica que vivemos só é válido se tiver muita treta e lacração, a internet discutia uma campanha publicitária que falava sobre ser “mãe-de-planta”. Eu ia simplesmente ignorar e aproveitar o dia das mães, mas aí – enquanto lavava louça – lembrei.

Quando soube que estava grávida me bateu aquele pânico básico, aquela crise de nervos e taquicardia intensa que faz parte de uma notícia desse porte. E eu só pensava em como todas as últimas 23432 plantas da minha casa tinham morrido. Eu temia não ter competência para o cargo, já que eu não conseguia nem manter uma planta viva. Mas como escolhi ser mãe, respirei fundo, aguei as plantas e segui.

E mesmo antes da Alice nascer já percebi que não precisava me preocupar com a sobrevivência dela, os chutes que eu levava por dentro de mim no meio da noite já me garantiam que ela eu nunca esqueceria de aguar.

Planta não chora, planta não pede, planta fica doente e morre e você troca por outra. Filho chora. E chora assim, pra caralho. Nos horários mais inconvenientes que você possa imaginar. Quando você está dormindo, no banho, fazendo cocô, cozinhando a comida dele mesmo, chora e reclama o tempo todo. Filho quando fica doente dói mais em você do que nele, e vendo a dor da criança tudo o que você quer é poder trocar de lugar com ele para que fique bem, você já está acostumada com dor, e você morreria por ele para ele viver mais e melhor do que você. Filho não se troca por outro.

E aos poucos, com tudo na vida, percebi que eu estava sendo idiota ao comparar planta e filho. E só quem claramente nunca conviveu com crianças pode fazer uma comparação besta dessas também. Feliz dia das mães, com amor e sem lacração, internet. <3

 

© Mixirica. Tudo nosso.

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