Em defesa do Bourdain

Sim, uma tragédia. Sim eu chorei junto. Como para muitos da minha geração, Anthony Bourdain foi inspiração e porta-voz. Ele pegou na mão dos metaleiros, punks, desajustados e desvalorizados e deu para eles importância, lugar e emprego. Levou todos para a cozinha, o melhor lugar da casa, em qualquer lugar do mundo, em qualquer casa: seja de comer, de viver, de beber, de estudar. A cozinha acolhe e nutre, e foi mostrando isso que Bourdain construiu seu legado.

Ele viajava, conhecia pessoas, descobria sabores e ontem quando ele tirou a própria vida mais de uma pessoa se perguntou: ele tinha a vida dos sonhos, o que deu errado? Eu to aqui fodido, se ele tirou a própria vida, que era dos sonhos, o que resta pra mim?

Fiquei pensando muito nisso, por que me doeu também, eu também queria a vida dele de comer e beber e viajar. Mas aí lembrei de uma entrevista em que perguntaram a ele o que não podia faltar na mala das viagens e a resposta foi: remédio para a barriga, como muita coisa estranha e às vezes passo muito mal.

Barriga revoltosa, horas de aeroporto, pulando de hotel em hotel, sem ver sua filha, seus pais, seus amores, pulando de obrigação em obrigação, de gravação em gravação. Tendo que sair do avião pra frente da câmera, e ainda ser bonito, inteligente, gentil e carismático. Será mesmo que essa era uma vida dos sonhos? Que tempo sobrava para ele aproveitar o dinheiro que ganhou? Podia comprar a casa dos sonhos, mas não ficava nela, podia viajar para onde quisesse, mas o que faltava ele conhecer? E nas horas vagas? Ia comer e beber? Quantas vezes por ano podia ser pai?

Acho que a vida dos sonhos dele dava margens para poucos sonhos extras. Pensando nisso, acabei dando valor para minha própria vida, não tão incrível como a dele, mas cheia de esperanças. E aprendi mais uma lição com ele. Tem coisa mais bonita do que ensinar algo a alguém mesmo depois de morto? Que talento Bourdain, não precisa nem respirar para inspirar.

Eu tinha uma vida bem estruturada, nos padrões sociais patriarcais. Marido, filha, casa, gato, carro, planos de ter mais um filho. Havia acabado de comprar um imóvel onde pude abrigar meu estúdio, um sonho antigo e que foi maravilhoso de realizar. Mas e aí? O que vinha depois? Eu nem meu ex-marido nunca fomos conformistas. E quando a gente conseguiu tudo, e tudo não era tão legal assim, a gente se divorciou e foi preciso recomeçar.

Eu tinha 34 anos e toda a minha vida planejada. Eu sabia o próximo mês, os próximos 5 anos, os próximos 10. E de repente isso tudo em que eu acreditava não era mais o que ia acontecer, ou o que eu queria. E da noite pro dia eu não sabia mais quem eu era. E nos dias em que não precisava cuidar da filha eu não levantava. Na época, uma pessoa me ajudava em casa e as funções de manter tudo encaminhado eram dela. Se Alice não demandava minha atenção eu não precisava fazer mais nada. Os cachorros passeavam, a roupa estava lavada. Eu só levantava para trabalhar e cuidar da filha, mas não era o suficiente para dar ânimo, para me fazer querer viver de verdade. Onde estavam meus planos? Where was my mind?

As obrigações que me faziam levantar foram aos poucos me ajudando a traçar novos planos. De repente eu vi que precisava um novo lugar para trabalhar, fui procurar. Não consegui pagar, tive que achar ajuda para controlar minhas finanças, agora dobradas sem a segunda renda da casa. Meu irmão veio me salvar, me ajudar a organizar. Por Alice, por ele eu precisava mostrar resultados. Precisava levantar.

Depois de um tempo a pessoa que me ajudava em casa se demitiu, estava cansada de receber em vezes, de cuidar de cada vez mais bichos, de guardar produção, coitada. E aí não tinha mais como eu ficar na cama. 4 bichos, uma filha com rinite alérgica, todo o pó de SP, roupa, comida, banho. Se eu não levantasse e muito cedo, tudo virava caos. As 6 vidas embaixo daquele teto dependem de mim. E isso me faz levantar todo dia, e me fez conseguir traçar um novo plano, e ir atrás de novos sonhos e agregar mais pessoas – que sei que acreditam em mim e que amo profundamente – a eles, para ganharem força. Sonho que se sonha junto chama realidade, chama vida.

Hoje de manhã li essa citação, que o Universo (ou Deus, como preferir) jogou na minha mão:

“It doesn’t interest me to know where you live or how much money you have; I want to know if you can get up after the night of grief and despair; Weary and bruised to the bone; And do what needs to be done for the children.”

(The Invitation By Oriah Mountain Dreamer)

E foi isso que me fez escrever esse textão para vocês.

Talvez os perrengues estejam aí pra isso, para nos dar rumo, objetivo, propósito, causa, para nos manter vivos. Para trazer gente amada, que se importa e quer ajudar. Aceite. Agradeça hoje por sua vida, que pode não ser dos sonhos, mas tem potencial para estar cheia deles.

Fuerza manos. E sonharemos por ti, Bourdain.

Foto da Carol Gherardi, que pode ser começo ou fim. Você escolhe.

Opino, logo existo

E adianta alguma coisa consumir tanto conteúdo na internet se depois de mastigar tudo na nossa cabeça, conectar os neurônios e ter uma opinião a gente não exprimir? Não que eu deixe de escrever sobre os assuntos depois de pesquisar muito, longe de mim, estou perguntando para um amigo…

Em SP Deus é uma nota de cem

Foi Mano Brown que disse, eu concordo. E acho que vale muito pro Natal. Fora meus pais, não conheço ninguém que comemore o nascimento ilustre, a maioria das pessoas comemora o 13o, a ostentação, as compras. Todo ano me sinto comemorando mais um aniversário do capitalismo, ele vestido de Noel, pairando com as renas sobre as nossas cabeças (e elas não usam fraldas).

A criança ali da manjedoura ia estar felizona com um misto quente e um cupcake de aniversário, com os amiguinhos correndo no quintal. Não ia fazer questão de peru, tender, frutas secas, champanhe, árvore de enfeite dourado, luz que veio da China e uma pá de presente largado no chão.

Estou aqui escrevendo isso com um peru no forno pra família, pensando na minha parcela nessa comemora(ostenta)ção. Este ano preparei outros 12 perus pro trabalho. Praticamente uma granja. Todos foram parar no lixo depois da foto, nenhum alimentou a barriga de ninguém, só os olhos. O propósito deles foi fazer com que os outros quisessem comer peru. Foi ditar o padrão, indicar o “dress code” da festa.

Até o cliente (um dos maiores vendedores de Peru dessa terra) me contou: as pessoas não gostam de Peru, compram porque fica bonito na mesa. Acham a carne seca, sem graça, mas querem ter ele na mesa. Por que é vistoso. Por que podem. Pesquisas comprovam.

Minha mesa vai ter peru, com esse gostinho amargo, mas vai. Mas espero que seja diferente no ano que vem. Por que cada vez mais estou do lado do Brown, querendo: um terreno no mato só seu, sem luxo, descalço, nadar no riacho, sem fome, pegando as frutas no cacho.

Boas festas proceis. Que a gente possa aprender e melhorar a cada ano, deixando esse aprendizado de herança pros nossos filhos. Estamos aqui só de passagem, feito aqueles perus, mas podemos escolher se queremos só encher os olhos de alguém, ou alimentar de verdade.

<3

PERGUNTATU

Minha grande amiga @trigasnails disse que sou boa conselheira. Acreditei. A partir de agora responderei às suas questões sobre comida, sobre produção e sobre a vida. Mande e-mail para td@mixirica.com.br que assim que possível, e se for adequado, responderei.

Para aquecer os motores, uma pergunta da própria manicure das estrelas: @trigasnails:

– “Que tipos de temperos um ser humano normal deve ter em casa, além de sal e pimenta, para as comidas não terem sempre o mesmo gosto todos os dias?”

Minha cara Daniellen,
Como já dizia aquele reclame da TV de algumas décadas atrás (talvez você nem fosse nascida ainda, minha jovem amiga) o tempero mais importante na comida é o amor. Não qualquer amor, mas aquele tipo que te faz levantar mais cedo da cama, que faz com que os dias pareçam mais ensolarados, que causa a ausência temporária do medo de errar.

Esse não é um amor romântico. Ele pode ser o amor pela receita que você quer fazer, o amor pelo ingrediente que você vai usar, ou até seu amor-próprio, que te faz cozinhar para si com afeto e alegria. Tenha esse amor na cozinha, beba dele, embriague-se. Sem medo de errar, de pileque de amor todas as receitas serão melhor temperadas.

Minha mãe já dizia que gente apaixonada salga demais a comida, e acho que deve ser por isso, por que perde as amarras, o comedimento, aquela insegurança burra que diz: só uma pitadinha disso.

ÀS FAVAS COM AS PITADINHAS, ouse, salgue, apimente, experimente ervas que você nem sabe que gosto tem. Vá ao mercado, cheire as ervas, tente imaginar com qual comida que você gosta aquilo combinaria. Adicione amor.

Além de amor, aqui em casa também costumo ter à mão salsinha fresca (coloco em tudo, inclusive os talos, dá cor e frescor e combina com tudo); páprica defumada (coisa dos deuses, quase um proto-barbecue, vai bem com tomates e todas as formas, carnes vermelhas, ovos variados); e tipos diferentes de pimentas (calabresa, do reino, rosa, uma ótima japonesa misturada com temperos secos). Garra naquela empolgação do amor e prove diferentes pimentas com diferentes comidas, vai ver que o mesmo filezinho de frango pode sair diferente toda vez, digno de look do dia.

Amor aos quilos para ti, maravilhosa.
Tatu

Carta para Dadi

Dadi querida,

Aquele sagu gelado de leite de coco e melancia não foi a única coisa refrescante do nosso almoço de hoje. A conversa sobre como precisamos voltar a escrever, eu aqui no Mixirica e você no Dadivosa, veio de encontro a mim como aquela brisa de fim de tarde na beira do mar: que chega de repente, arrepia, renova o ar, a esperança e as vontades todas.

Por isso resolvi escrever este post para nós. Para continuar a conversa boa e compartilhar contigo alguns pensamentos que compilei nas últimas semanas e que me trouxeram de volta ao computador. Todos se encaixam na frase: “Por que preciso escrever”.

Por exercício, para treinar a lógica, a memória, o foco, brincar de vocabulário e ir além da redação de e-mails e receitas para clientes. Para manter torneado o músculo da escrita, como me ensinou a maravilhosa Cris Lisboa.

Por que ajuda a organizar as ideias, a priorizar e mostrar o caminho mais lógico para transformar pensamentos em prática.

Para segurar por mais tempo um pensamento. Para que ele vire matéria, mesmo que em bytes. Por que o que vai pro papel (ou para a tela) deixa de ser massa cinzenta, vira vida.

Por que criar é mais prazeroso do que consumir. É abrir diálogos e ter espaço para compartilhar ideias, desabafar angústias e, por que não, catalogar receitas.

Para mim.
Para você.
Para quem mais quiser saber.

Em uma conversa que assisti na Primavera dos Livros semana passada, um dos autores presentes citou o livro da Carolina de Jesus. A Carolina escreveu o que se passava na favela do Canindé na década de 60. Mulher, negra, catadora de papel. Por que ela escreveu, as pessoas dos 13 outros países em que foram publicadas traduções do seu livro puderam imaginar o que é ser mulher, negra e catadora de papel na favela do Canindé. Coisa importante e sofrida de saber. O texto dela abriu mentes e promoveu mudanças.

Pode ser que minha vida não seja tão interessante quanto a da Carolina, mas criar uma filha, dois cachorros, dois gatos e dois sapos enquanto tento ganhar a vida cozinhando tem lá seus desafios. Vai que algum causo meu também tem o poder de abrir a mente de alguém? Mudar, mesmo que um cadinho só, um pedaço de mundo? Se eu não escrever a possibilidade não vai existir, e nós nunca vamos saber…

Por hora, é isso que tenho pra te dizer, minha amiga. E mesmo que ninguém leia a gente, eu estou aqui sabendo que minhas palavras vão sair do meu peito e chegar nos seus olhos, assim como as tuas chegarão aos meus. Então me dá aqui a mão, vamos abrir uma brecha nos nossos dias corridos para fazer ideias palpáveis e garantir nossa voz na posteridade. Estamos juntas nesse desafio de escrever.

Amor,
Tatu