Opino, logo existo

E adianta alguma coisa consumir tanto conteúdo na internet se depois de mastigar tudo na nossa cabeça, conectar os neurônios e ter uma opinião a gente não exprimir? Não que eu deixe de escrever sobre os assuntos depois de pesquisar muito, longe de mim, estou perguntando para um amigo…

Em SP Deus é uma nota de cem

Foi Mano Brown que disse, eu concordo. E acho que vale muito pro Natal. Fora meus pais, não conheço ninguém que comemore o nascimento ilustre, a maioria das pessoas comemora o 13o, a ostentação, as compras. Todo ano me sinto comemorando mais um aniversário do capitalismo, ele vestido de Noel, pairando com as renas sobre as nossas cabeças (e elas não usam fraldas).

A criança ali da manjedoura ia estar felizona com um misto quente e um cupcake de aniversário, com os amiguinhos correndo no quintal. Não ia fazer questão de peru, tender, frutas secas, champanhe, árvore de enfeite dourado, luz que veio da China e uma pá de presente largado no chão.

Estou aqui escrevendo isso com um peru no forno pra família, pensando na minha parcela nessa comemora(ostenta)ção. Este ano preparei outros 12 perus pro trabalho. Praticamente uma granja. Todos foram parar no lixo depois da foto, nenhum alimentou a barriga de ninguém, só os olhos. O propósito deles foi fazer com que os outros quisessem comer peru. Foi ditar o padrão, indicar o “dress code” da festa.

Até o cliente (um dos maiores vendedores de Peru dessa terra) me contou: as pessoas não gostam de Peru, compram porque fica bonito na mesa. Acham a carne seca, sem graça, mas querem ter ele na mesa. Por que é vistoso. Por que podem. Pesquisas comprovam.

Minha mesa vai ter peru, com esse gostinho amargo, mas vai. Mas espero que seja diferente no ano que vem. Por que cada vez mais estou do lado do Brown, querendo: um terreno no mato só seu, sem luxo, descalço, nadar no riacho, sem fome, pegando as frutas no cacho.

Boas festas proceis. Que a gente possa aprender e melhorar a cada ano, deixando esse aprendizado de herança pros nossos filhos. Estamos aqui só de passagem, feito aqueles perus, mas podemos escolher se queremos só encher os olhos de alguém, ou alimentar de verdade.

<3

PERGUNTATU

Minha grande amiga @trigasnails disse que sou boa conselheira. Acreditei. A partir de agora responderei às suas questões sobre comida, sobre produção e sobre a vida. Mande e-mail para td@mixirica.com.br que assim que possível, e se for adequado, responderei.

Para aquecer os motores, uma pergunta da própria manicure das estrelas: @trigasnails:

– “Que tipos de temperos um ser humano normal deve ter em casa, além de sal e pimenta, para as comidas não terem sempre o mesmo gosto todos os dias?”

Minha cara Daniellen,
Como já dizia aquele reclame da TV de algumas décadas atrás (talvez você nem fosse nascida ainda, minha jovem amiga) o tempero mais importante na comida é o amor. Não qualquer amor, mas aquele tipo que te faz levantar mais cedo da cama, que faz com que os dias pareçam mais ensolarados, que causa a ausência temporária do medo de errar.

Esse não é um amor romântico. Ele pode ser o amor pela receita que você quer fazer, o amor pelo ingrediente que você vai usar, ou até seu amor-próprio, que te faz cozinhar para si com afeto e alegria. Tenha esse amor na cozinha, beba dele, embriague-se. Sem medo de errar, de pileque de amor todas as receitas serão melhor temperadas.

Minha mãe já dizia que gente apaixonada salga demais a comida, e acho que deve ser por isso, por que perde as amarras, o comedimento, aquela insegurança burra que diz: só uma pitadinha disso.

ÀS FAVAS COM AS PITADINHAS, ouse, salgue, apimente, experimente ervas que você nem sabe que gosto tem. Vá ao mercado, cheire as ervas, tente imaginar com qual comida que você gosta aquilo combinaria. Adicione amor.

Além de amor, aqui em casa também costumo ter à mão salsinha fresca (coloco em tudo, inclusive os talos, dá cor e frescor e combina com tudo); páprica defumada (coisa dos deuses, quase um proto-barbecue, vai bem com tomates e todas as formas, carnes vermelhas, ovos variados); e tipos diferentes de pimentas (calabresa, do reino, rosa, uma ótima japonesa misturada com temperos secos). Garra naquela empolgação do amor e prove diferentes pimentas com diferentes comidas, vai ver que o mesmo filezinho de frango pode sair diferente toda vez, digno de look do dia.

Amor aos quilos para ti, maravilhosa.
Tatu

Carta para Dadi

Dadi querida,

Aquele sagu gelado de leite de coco e melancia não foi a única coisa refrescante do nosso almoço de hoje. A conversa sobre como precisamos voltar a escrever, eu aqui no Mixirica e você no Dadivosa, veio de encontro a mim como aquela brisa de fim de tarde na beira do mar: que chega de repente, arrepia, renova o ar, a esperança e as vontades todas.

Por isso resolvi escrever este post para nós. Para continuar a conversa boa e compartilhar contigo alguns pensamentos que compilei nas últimas semanas e que me trouxeram de volta ao computador. Todos se encaixam na frase: “Por que preciso escrever”.

Por exercício, para treinar a lógica, a memória, o foco, brincar de vocabulário e ir além da redação de e-mails e receitas para clientes. Para manter torneado o músculo da escrita, como me ensinou a maravilhosa Cris Lisboa.

Por que ajuda a organizar as ideias, a priorizar e mostrar o caminho mais lógico para transformar pensamentos em prática.

Para segurar por mais tempo um pensamento. Para que ele vire matéria, mesmo que em bytes. Por que o que vai pro papel (ou para a tela) deixa de ser massa cinzenta, vira vida.

Por que criar é mais prazeroso do que consumir. É abrir diálogos e ter espaço para compartilhar ideias, desabafar angústias e, por que não, catalogar receitas.

Para mim.
Para você.
Para quem mais quiser saber.

Em uma conversa que assisti na Primavera dos Livros semana passada, um dos autores presentes citou o livro da Carolina de Jesus. A Carolina escreveu o que se passava na favela do Canindé na década de 60. Mulher, negra, catadora de papel. Por que ela escreveu, as pessoas dos 13 outros países em que foram publicadas traduções do seu livro puderam imaginar o que é ser mulher, negra e catadora de papel na favela do Canindé. Coisa importante e sofrida de saber. O texto dela abriu mentes e promoveu mudanças.

Pode ser que minha vida não seja tão interessante quanto a da Carolina, mas criar uma filha, dois cachorros, dois gatos e dois sapos enquanto tento ganhar a vida cozinhando tem lá seus desafios. Vai que algum causo meu também tem o poder de abrir a mente de alguém? Mudar, mesmo que um cadinho só, um pedaço de mundo? Se eu não escrever a possibilidade não vai existir, e nós nunca vamos saber…

Por hora, é isso que tenho pra te dizer, minha amiga. E mesmo que ninguém leia a gente, eu estou aqui sabendo que minhas palavras vão sair do meu peito e chegar nos seus olhos, assim como as tuas chegarão aos meus. Então me dá aqui a mão, vamos abrir uma brecha nos nossos dias corridos para fazer ideias palpáveis e garantir nossa voz na posteridade. Estamos juntas nesse desafio de escrever.

Amor,
Tatu

mxc 14

14 anos já é adolescente, quase debutante, uma mocinha. Essa é a idade que o Mixirica completa hoje. Lembro do dia em que colocamos o site no ar, 22 de setembro de 2002. Só tinha textos longuíssimos, nenhuma foto. Subimos os arquivos e comemoramos com bellinis de tangerina.

De lá pra cá o site mudou muitas vezes. E eu mudei com ele (ou foi o contrário?). Há 14 anos eu não tinha casado, não tinha filha, não tinha plantado árvore e nem escrito livros. Hoje já casei, separei, pari, escrevi, abri empresa, fechei empresa, mudei de carreira e de vida. Mixirica ganhou textos curtos, fotos, receitas e segue uma metamorfose ambulante. Mas a comida – centro da minha vida e da dele – segue dando água na boca.

Obrigada leitores queridos, que como eu e o site também mudaram durante esses anos, mas seguem sentados à nossa mesa. <3

 

 

© Mixirica. Tudo nosso.

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